O Feitiço da Aranha e o Tempo

Esta é a história de uma pequena tribo isolada no coração da floresta.

Na verdade, é a minha própria história, pois não sei se essa tribo realmente existe, ou se era só em meus sonhos que ela ganhava vida.

Mais especificamente, isso aqui é uma história sobre uma história que se contava nessa tribo, e que, de uma maneira bem estranha, se entrelaça com a minha.

Então é uma história sobre uma história que talvez fosse apenas um sonho.

Vou explicar melhor…

Todos os anos, durante as noites de Outono, quando eu me deitava para dormir, algo mágico acontecia. Desde muito pequeno, ao fechar meus olhos na cama eu era transportado para essa esse lugar no meio da floresta tropical. Uma espécie de tribo cuja etnia jamais consegui identificar, mas nunca me importei tanto com isso também. E acontecia sempre da mesma maneira: eu despertava dentro de uma pequena cabana sentindo uma dormência no corpo, que logo passava e eu começava a recobrar os sentidos. Aí eu saía da cabana e meu dia na tribo começava. Todo mundo sabia quem eu era, e eu era diferente de mim mesmo no mundo real. O eu na tribo tinha outra aparência, mas mantinha a mesma consciência. Tinha a mesma idade corporal também, e isso quer dizer que cresci na tribo e no mundo real ao mesmo tempo.

Era uma coisa estranha, pois mesmo sendo uma experiência diferente, era como se ela fosse natural, pois eu não sentia necessidade de compartilhar isso com as outras pessoas da tribo. E no fundo eu sabia que a presença deles ali se dava nos mesmos moldes que a minha, ou seja, eram todos pessoas do mundo real que acessavam aquele mundo e compartilhavam aquela vida durante o sono. Eram vivências muito reais. Sempre tive total consciência de meus atos e pensamentos durante elas.

Pois bem, nessa tribo existiam variam histórias que as pessoas de maior sabedoria contavam, e uma delas era sobre uma aranha. Uma grande aranha invisível que tecia enormes teias na floresta ao redor da tribo. E essas teias eram também invisíveis, e mais, elas somente grudavam nas pessoas da tribo. Animais, plantas e insetos não ficavam presos nelas.

Sempre achei que eles contavam essa história pra que as crianças não se aventurassem sozinhas pela mata, e de fato ela me deixava com bastante medo. Mas com o tempo notei que também os adultos, incluindo a mim mesmo, não saíam para explorar a mata com medo de caírem em uma dessas teias. Todos ficavam concentrados em um curto raio de floresta em volta da tribo, sem saber o que havia mais além. Essa história gerava um medo irracional, que não se sabia de onde vinha, e mesmo assim, ninguém ousava se arriscar para saber se era verdade ou não.

E assim os anos se passavam nessa tribo. As pessoas faziam aquilo que sempre fizeram, dando continuidade à um ciclo começado não se sabe quando. Perpetuando uma história e um medo que as impedia de experimentar a vida além da tribo.

Me lembro exatamente daquele dia. Era a primeira noite do Outono e eu já sabia que ao adormecer seria transportado para a floresta. Mas algo diferente aconteceu. Abri os olhos e estava em um lugar bem escuro, e dava pra sentir de alguma forma que era o interior de alguma caverna, bem profunda, feita na rocha sólida de alguma montanha.

Não conseguia ver nada, somente uma leve luz que emanava de um objeto no chão. Andei até lá e ví que se tratava de uma pequena pedra que emitia uma luz verde. Me abaixei para pegar, pois sentia seu chamado em minha mente. Ao olhar, ví que havia uma frase entalhada:

— O feitiço da Aranha e o Tempo.

Isso ficou na minha cabeça, e tudo fez sentido. E por isso resolvi escrever esse relato e publicá-lo na internet, com a esperança de que as outras pessoas que também faziam parte de minha tribo pudessem encontrá-lo e lê-lo. E se libertar.

No dia em que recebi a mensagem escrita na pedra, eu acordei na tribo e fiz aquilo que sempre tive vontade de fazer. Percebi que meu desejo de ir além sempre havia sido calado por um medo irracional, disseminado através de uma história que as pessoas propagavam sem nem saber o porquê, pois elas também haviam crescido escutando a mesma história. Naquele dia andei até a mata, e andei, e andei, e continuei andando. Tudo foi ficando escuro, eu já não enxergava mais nada ao redor, via somente uma fraca luz que estava alguns metros mais a frente. Segui na direção dela.

Para minha surpresa, era a saída de uma caverna.

[Vitor Uemura]

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