Mínimo consumo

Há uma maneira de evitar o consumo ?
Em termos de alimento pode ser que eu consiga plantar grande parte daquilo que consumo, mas quando a coisa escalona para outras atividades, principalmente as criativas, fica um pouco mais difícil de produzir as ferramentas e matérias primas de que necessito para poder me expressar. Sem contar que é necessário uma certa mudança no estilo de vida também, para que haja menos necessidades que não podem ser produzidas artesanalmente.
Dificilmente serei capaz de produzir meu próprio computador. Mas se eu me esforçar para viver de uma maneira em que eu não precise de um computador, não terei que me preocupar em comprá-lo. É necessário simplificar a vida ao mesmo tempo em que se opta por viver daquilo que é possível produzir.
 

Além disso, é possível trocar coisas. Mas acredito que essa não deva ser uma opção fixa, pois ela pode variar bastante, ou seja, se rolarem trocas, ótimo, se não rolarem as trocas, minha vida continua do mesmo jeito. É como um bônus bom.
 

Qual o trabalho necessário para se plantar tudo o que se consome ?
Não tenho experiência suficiente para responder e nem ponderar muito sobre essa questão. Só acredito que é bastante trabalho, e trabalho pesado. Então nada de contar com muito tempo livre, pois a minha vida estaria atrelada à terra e suas variações.
Vale lembrar também que na natureza as vezes a coisa não anda como a gente gostaria. As coisas levam tempo, e também podem ocorrer desastres não esperados, que acabariam colocando em risco o plano.
 

Sendo assim, sinto que o primeiro grande trabalho a ser feito é sobre mim mesmo, sobre o que considero necessário para viver uma vida simples e boa, para viver bem. Eu preciso fazer muitas experimentações para saber o que realmente preciso ou não, para ver como as coisas me afetam. Um exemplo que tenho disso é o da cama; uns anos atrás eu resolvi trocar o colchão comum por um do tipo futon, muito mais baixo e fino e percebi que meu corpo se adaptou muito bem, inclusive eliminando dores lombares. Um tempo depois, resolvi tirar o futon e usar o tapetinho de yoga, e estou vendo que igualmente meu corpo se adaptou e estou conseguindo dormir normalmente, sem perder a qualidade do sono. Eu só pude perceber esse tipo de coisa através da experimentação, fazendo os testes comigo mesmo.
 

Essa busca por adequar os meios de vida ao que nosso corpo é capaz e ao que ele sente é bastante importante porque fomos doutrinados em muitas coisas antes mesmo de termos nossas próprias experiências, e então um trabalho de reavaliação e resgate de conhecimentos é necessário para que a gente possa ver o que realmente tem alguma importância na nossa vida e o que a gente vem fazendo de modo automático, sem ter se questionado sobre o assunto.
 

Essa investigação de si mesmo dura um longo tempo, porque é uma coisa bem pessoal, não é uma ciência exata que fornece pra gente um passo-a-passo pra seguir e checar situações. E pode ser que as coisas mudem no meio do caminho. É importante saber disso também.
 

Uma outra experiência pessoal que posso citar é a do desodorante. Desde sempre eu sabia que precisava usar desodorante, não tinha dúvida nenhuma sobre isso, e assim eu usava. Até que um certo dia na vida eu resolvi fazer a transição para os desodorantes artesanais feitos pelas pessoas que eu conhecia, e isso foi muito bom, logo senti a diferença entre os produtos. Mais um pouco de tempo passou e comecei a me questionar sobre usar ou não qualquer desodorante que fosse, até que resolvi fazer alguns testes e passar um tempo sem ele. No final eu fui vendo que é comum ter um cheiro no corpo, o meu cheiro por sinal, e que isso não me incomodava porque era natural, era a opção mais natural e simples que eu tinha, cheirar o meu próprio cheiro. E sabendo disso, sei também que outras pessoas tem seus próprios cheiros, e assim essa coisa de sentir nojinho do cheiro do corpo de outras pessoas foi se dissolvendo em mim, essa concepção introjetada em minha mente foi sendo quebrada.
 

Concluindo, vejo que não sou capaz de viver somente daquilo que produzo, mas sou capaz de mudar de forma drástica os padrões de consumo que me foram introduzidos como normais, e posso buscar uma maneira de viver bem mais simples e honesta. Não se trata de consumir carros elétricos, produtos naturais, orgânicos, familiares, artesanais, feitos com material reciclado, etc. Se trata de consumir menos, consumir o mínimo que for possível, e minimizar isso através de um processo de autoconhecimento e de quebra de padrões.

[Vitor Uemura]

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